Pesquisa do IBGE mostra que 1,959 milhão de pessoas atuaram por meio de plataformas digitais em 2025; maioria trabalhava por conta própria e 72,1% estava na informalidade.Motoristas de aplicativos e motoboys de delivery - Paulo Pinto/Agência Brasil
Quase 2 milhões de brasileiros trabalharam por meio de aplicativos em 2025, segundo levantamento divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (4). Ao todo, 1,959 milhão de pessoas, o equivalente a 1,9% dos ocupados no país, atuaram por meio de plataformas digitais de transporte, entregas e prestação de serviços.
Os trabalhadores foram classificados pelo IBGE como “plataformizados”. A pesquisa considerou pessoas com 14 anos ou mais que utilizaram aplicativos para realizar atividades profissionais.
O segmento de transporte de passageiros concentra a maior parcela desse contingente. Cerca de 1,2 milhão de pessoas trabalhavam utilizando aplicativos da categoria, o que corresponde a 58,9% dos trabalhadores plataformizados. Desse total, aproximadamente 1,1 milhão utilizavam plataformas como Uber e 99, enquanto 232 mil atuavam exclusivamente por meio de aplicativos de táxi.Os entregadores representavam 19,2% dos trabalhadores de plataformas, com cerca de 376 mil pessoas realizando entregas de alimentos, produtos e outros itens por aplicativos como Rappi, iFood e Zé Delivery.
Outra categoria identificada pelo levantamento reúne profissionais que oferecem serviços gerais ou especializados por plataformas digitais. Em 2025, eram aproximadamente 313 mil pessoas, ou 16% dos plataformizados. O grupo inclui atividades como design, tradução e atendimentos de telemedicina realizados por meio de plataformas.
No setor de transporte, armazenagem e correios, a participação de trabalhadores plataformizados chega a 75%. Na prática, isso significa que três em cada quatro pessoas ocupadas nessa área utilizavam aplicativos para exercer suas atividades.
A pesquisa sobre trabalho por plataformas digitais ainda é considerada experimental pelo IBGE. O levantamento também foi realizado em 2022 e 2024, mas as edições anteriores consideravam somente quem tinha os aplicativos como principal ocupação.
Em 2025, o IBGE passou a incluir também pessoas que utilizavam as plataformas como fonte de renda complementar. Por esse motivo, o total de 1,959 milhão não pode ser diretamente comparado com os números das pesquisas anteriores.
Considerando apenas quem tinha o trabalho por aplicativo como principal ocupação, o contingente chegou a 1,8 milhão de pessoas em 2025. O número representa aumento de 9,1% em relação a 2024 e de 36,8% na comparação com 2022.
- 2022: 1,3 milhão
- 2024: 1,7 milhão
- 2025: 1,8 milhão
Entre 2024 e 2025, o número de entregadores por aplicativo cresceu 18,6%, sendo a única categoria a apresentar aumento superior a 10% no período.
Entre os trabalhadores que tinham os aplicativos como ocupação principal, 84,4% eram homens. Em relação à faixa etária, 47% tinham entre 25 e 39 anos.
O IBGE também investigou as razões que levaram essas pessoas a buscar trabalho nas plataformas. Entre motoristas de aplicativos, excluindo os taxistas, e entregadores, o principal motivo apontado foi a dificuldade de encontrar outro trabalho.
A flexibilidade da atividade e a possibilidade de obter rendimento superior ao de outras ocupações disponíveis também apareceram entre as justificativas apresentadas pelos trabalhadores.
Apesar de registrarem rendimento mensal semelhante ao dos demais trabalhadores do setor privado, os plataformizados cumpriam jornadas semanais mais extensas.
Em 2025, o rendimento médio mensal dos trabalhadores de aplicativos foi de R$ 3.147, praticamente o mesmo valor registrado entre os não plataformizados, de R$ 3.148.
A diferença aparece quando o rendimento é analisado em relação ao número de horas trabalhadas. Os plataformizados trabalhavam, em média, 44,7 horas por semana, enquanto os demais ocupados trabalhavam 39,3 horas.
Com uma jornada semanal 5,4 horas maior e rendimento mensal praticamente igual, o trabalhador de aplicativo recebia menos por hora: R$ 16,20, contra R$ 18,40 entre os não plataformizados, uma diferença de aproximadamente 12%.
Segundo o IBGE, o rendimento considerado na pesquisa corresponde ao valor efetivamente retirado pelo trabalhador após o pagamento de custos relacionados à atividade, como combustível no caso dos motoristas.
Outro destaque do levantamento é a elevada taxa de informalidade entre os trabalhadores de aplicativos. 72,1% dos plataformizados estavam na informalidade em 2025, enquanto o índice entre os demais trabalhadores era de 42,7%.
A diferença também aparece na cobertura previdenciária. Apenas 34% dos trabalhadores de aplicativos tinham cobertura previdenciária, contra 63% entre os não plataformizados.
O IBGE considera informais, entre outros casos, empregados sem carteira assinada e trabalhadores por conta própria sem CNPJ. Esses trabalhadores não possuem, nessa condição, garantias associadas ao emprego formal, como férias e 13º salário.
A pesquisa aponta ainda que 86,8% dos trabalhadores de aplicativos atuavam por conta própria, percentual muito superior à média de 28,9% registrada entre os ocupados por conta própria no setor privado.
Apesar disso, o IBGE identificou sinais de dependência em relação às plataformas. Entre motoristas de aplicativos, sem considerar táxis, 80,2% afirmaram que o valor recebido por cada tarefa dependia totalmente da plataforma.
Entre os entregadores, o índice foi de 78,3%. Além disso, 65,9% disseram que os prazos para realização das tarefas eram determinados pelos aplicativos, enquanto 71,3% afirmaram que a forma de pagamento também era definida pelas plataformas.
O analista da pesquisa, Gustavo Geaquinto Fontes, classificou a situação como “diferente de um conta própria tradicional”.
“Apesar de essa pessoa não ter um vínculo formal com a plataforma, ele, na verdade, tem uma dependência em vários aspectos em relação à empresa que controla a plataforma digital”.
A divulgação da pesquisa ocorre em meio à discussão no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a chamada “uberização” do trabalho. O tribunal adiou, recentemente, a retomada do julgamento que trata da possibilidade de reconhecimento de vínculo empregatício entre trabalhadores e plataformas digitais.
Representantes de categorias como motoristas e entregadores defendem o reconhecimento de direitos trabalhistas e apontam risco de precarização das relações de trabalho. As principais empresas do setor, por outro lado, contestam a existência de vínculo empregatício.
Um parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR) defende que o STF não reconheça vínculo trabalhista entre motoristas e aplicativos.
Por Lala Freitas /
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