Fenômeno pode provocar impactos no clima baiano entre outubro deste ano e fevereiro de 2027, com reflexos na produção agrícola, abastecimento e preços dos alimentos.Foto: Reprodução/Freepik
A possibilidade de formação de um Super El Niño pode trazer impactos para diferentes regiões da Bahia, especialmente com aumento das temperaturas e maior irregularidade nas chuvas. Segundo especialistas consultados pelo Jornal Metrópole, os efeitos mais perceptíveis no estado devem ocorrer entre a primavera e boa parte do verão, principalmente de outubro deste ano a fevereiro de 2027.
De acordo com o meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Melquizedek Rafael, o Norte da Bahia e, principalmente, o Semiárido, que corresponde a cerca de 85% do território estadual, estão entre as áreas que podem enfrentar períodos mais prolongados de estiagem e precipitações abaixo da média caso o fenômeno se confirme em intensidade excepcional.
Em Salvador, os efeitos também exigem atenção, mas não significam necessariamente ausência de chuvas. Conforme o oceanógrafo Gabriel Pugliese, coordenador do Centro de Monitoramento e Alerta da Defesa Civil de Salvador (Cemadec), o fenômeno pode provocar alternância entre períodos secos e episódios de chuva intensa, elevando os riscos de déficit hídrico, alagamentos e deslizamentos.Isso ocorre porque o regime de chuvas da capital baiana não depende exclusivamente do El Niño. As condições do Oceano Atlântico e outros sistemas atmosféricos também influenciam diretamente a distribuição das precipitações na cidade.
Uma das principais preocupações está no setor agropecuário. Segundo o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb), Humberto Miranda, uma seca severa associada a um Super El Niño poderia provocar um impacto superior a R$ 13 bilhões na economia baiana.
A estimativa considera possíveis perdas na produção e efeitos sobre renda, insumos, transporte, comércio, agroindústria, arrecadação e atividade econômica dos municípios.
Um exemplo recente é o El Niño registrado entre 2023 e 2024. Naquele período, mais de 1 milhão de animais foram perdidos na Bahia em razão da redução das pastagens e da escassez de água, gerando um impacto estimado em R$ 1,13 bilhão.
O fenômeno também provocou prejuízos em culturas como café, milho, mandioca, feijão, cebola, laranja e castanha de caju, além de afetar atividades relacionadas à produção de leite e mel.
O Semiárido baiano está entre as regiões que mais preocupam devido à dependência da regularidade das chuvas. No Centro-Norte, municípios como Irecê, Jacobina, Itaberaba e Senhor do Bonfim podem enfrentar novos impactos sobre culturas como o feijão em caso de restrição hídrica. Situação semelhante pode ocorrer no Centro-Sul, onde estão cidades como Vitória da Conquista e Jequié.
No Oeste baiano, importante polo agrícola nacional, municípios como Barreiras, Luís Eduardo Magalhães, Formosa do Rio Preto e São Desidério também estão sujeitos aos efeitos de alterações significativas no regime de chuvas.
A região concentra grande produção de soja, milho e algodão. Uma mudança severa no volume e na distribuição das precipitações pode interferir na produtividade, no calendário de plantio e colheita e nos custos de produção.
Os impactos podem chegar também ao consumidor. De acordo com a Faeb, produtos como milho, feijão, mandioca e itens da pecuária estão entre os que podem sofrer pressão sobre os preços caso haja quebra de produção.
O milho tem peso adicional nessa cadeia, já que é utilizado tanto diretamente na alimentação humana quanto na composição da ração animal. Uma redução na oferta pode, portanto, contribuir para o aumento dos custos de carnes, leite e ovos.
Diante da possibilidade de um cenário de estiagem mais severa, a Faeb encaminhou ao governo da Bahia propostas para reduzir os possíveis impactos. Entre as medidas estão a ativação de poços já perfurados, criação de novas linhas de crédito para infraestrutura hídrica, formação de estoques estratégicos de milho e ampliação da assistência técnica.
A entidade também defende o fortalecimento do seguro rural e investimentos em barragens, reservatórios e tecnologias voltadas à convivência com o Semiárido.
Apesar das projeções, o cenário ainda depende da evolução e da intensidade do fenômeno. Na Bahia, eventuais efeitos do Super El Niño podem se manifestar não apenas nas temperaturas, mas também na distribuição das chuvas, na disponibilidade de água, na produtividade agrícola e, consequentemente, nos preços dos alimentos.
Por Lala Freitas /
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