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Estudo aponta que dose única do HPV funciona, mas proteção ao vírus mais agressivo é menor

 

Pesquisa publicada na The Lancet Infectious Diseases reforça eficácia da imunização simplificada, mas indica necessidade de reforço para vírus ligado ao câncer de colo do útero
Foto: José Cruz/Agência Brasil

Um estudo publicado na edição de dezembro da revista The Lancet Infectious Diseases comparou a aplicação de uma dose única da vacina bivalente contra o HPV (subtipos 16 e 18) em meninas de 9 a 14 anos à aplicação de três doses da vacina quadrivalente (6, 11, 16 e 18) em mulheres de 18 a 25 anos. Os resultados mostram que, para o subtipo 18, a dose única atingiu o mesmo limiar de proteção do esquema de três doses. No entanto, para o subtipo 16, responsável pela maioria dos casos de câncer, o imunizante em dose única não alcançou a chamada “não inferioridade”, isto é, igual ou maior proteção em relação ao esquema tradicional.

Apesar dessa diferença, a taxa de soroconversão aos 36 meses foi muito elevada em ambos os grupos: 98,9% nas meninas vacinadas com dose única e 96% nas mulheres que receberam o esquema completo, indicando forte resposta imune.

A análise considerou a concentração média de anticorpos (GCM) ao longo do tempo. Aos 24 e 36 meses, a proteção contra o subtipo 18 foi igual ou superior à registrada no grupo que completou as três doses (0,9 e 1,11). Já para o subtipo 16, o desempenho foi 50% menor (0,42 e 0,5), sugerindo que reforços podem ser necessários para bloquear totalmente o risco de infecção por esta variante do vírus.

O estudo avaliou 539 meninas e 366 mulheres livres de infecção prévia pelo subtipo 16 e 523 meninas e 373 mulheres sem contato anterior com o subtipo 18.

Desde 2022, a OMS orienta a vacinação contra o HPV em dose única para ampliar a cobertura vacinal, especialmente em países de baixa renda, onde persistem dificuldades de acesso e adesão.

Após o ensaio clínico principal, os pesquisadores também compararam a resposta imune de meninas vacinadas conforme o Programa Nacional de Imunização da Costa Rica com a de mulheres que receberam dose única da bivalente em outro estudo. Nesse recorte, a resposta para os subtipos 16 e 18 foi praticamente equivalente, reforçando o potencial da estratégia de dose única.

Os autores ressaltam que os dados ainda são inconclusivos e que faltam estudos clínicos mais robustos, randomizados, duplo-cegos e controlados, para definir qual nível de anticorpos é suficiente para proteção contra o subtipo 16 em meninas. Eles também investigam se a idade influencia na resposta imune, já que mulheres mais velhas podem ter memória imunológica devido ao contato prévio com o vírus, algo comum: estima-se que 80% dos adultos sexualmente ativos entrem em contato com o HPV ao longo da vida.

Mesmo assim, permanece sem explicação o fato de a proteção contra o subtipo 18 ter sido maior no grupo que recebeu apenas uma dose.

Situação no Brasil

A recomendação da OMS segue válida, especialmente em locais com maior dificuldade de acesso às vacinas, afirmam os especialistas. No Brasil, o Ministério da Saúde incluiu há dois anos a dose única contra o HPV no PNI para meninas e meninos de 9 a 14 anos, além de outros grupos prioritários como pessoas vivendo com HIV, usuários de PrEP e vítimas de abuso sexual.

O imunizante aplicado pelo SUS é produzido pelo Instituto Butantan e protege contra os quatro subtipos 6, 11, 16 e 18.

Mesmo com a ampliação da política, a adesão ainda preocupa: em 2024, entre as meninas, 95,36% receberam a primeira aplicação, mas o percentual caiu para 79,75% na segunda. Entre os meninos, os índices foram ainda menores, 68,69% na primeira dose e 51,57% na segunda, segundo dados da plataforma VacinaBR.

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